Técnicas de Psicoterapia Holística,
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sábado, março 17, 2012

Todos parecem Felizes
Pirineus de Sousa
Do Livro “Quando a Depressão Ataca”

Todos parecem felizes, menos, eu. O que estará acontecendo? Estarei louco? Na verdade, meus neurotransmissores estão mal conectados e o estar feliz não é minha condição psíquica.
O meu sorriso morre no nascedouro, amarelado, quando tento dá-lo. É uma angustia cruciante e percebê-lo nos outros é inadmissível. Chego a me sentir pertencente a uma raça especial de seres, onde o interior é todo tristeza. O meu momento atual é péssimo. Quando admitiria ter "inveja" de outras pessoas que normalmente levam o seu dia a dia? Pois o momento chegou. O que fazer? Conscientizar-me de que já fui assim e poderei voltar a sê-lo. Que necessariamente, terei de recorrer a todos as autos: estima, controle, determinação, análise... Meu interior tem que voltar a vibrar como antes, diante de pequenas e grandes realizações e isto só conseguirei amando-me antes de tudo, pois só receberei o que puder dar. Não posso ficar como um espelho opaco, cego, que só recebe e não retransmite.
Admita que você não fez por merecer tal tristeza, ela chegou sem pedir licença e se instalou no seu interior. Cabe a você captar a alegria que os outros transmitem, admitir que os outros mereçam ser felizes e principalmente, você. Não se acanhe em achar graça nas pequenas coisas, fatos, situações.
Volte a se encontrar com o lado cômico da vida. Não espere a hilaridade bater à sua porta, procure-a. Lembre-se o sorriso poderá iluminar seu ar tão sofrido e você estará transmitindo uma sensação agradável para seus semelhantes, aos animais...
Falar é fácil, mas se você não tentar, se não der os primeiros passos rumo à alegria, ficará a ver navios, pois a vida não vai parar só porque você está a sua margem. Embarque no bonde onde os demais estão. Constituem-se a maioria é porque deve ser o mais certo.
Outras pessoas também têm problemas, não igual ao seu, que é "maior". Mas, mesmo assim, parecem felizes e muitas vezes, assim como você, só parecem. Os seus "eus" podem também estar sofrendo.
 Para não fingir ser feliz, só resta sentir-se verdadeiramente cheio de felicidade. E depressivo, não conseguirá. O que fazer?
Colaborar com a sua cura, do contrário, estará perdendo grandes momentos da sua existência. Ao sentir-se vibrando verdadeiramente, a sua cura terá chegado e “Se o seu aniversário brilhar com as luzes da alegria e felicidade... Isso será só um reflexo de você”.
E as crianças, os adolescentes? Esses merecem atenção especial. Observe se eles estão tristonhos, os médicos não encontram doenças que só são aparentes. Vivem como se estivessem a assistir a um filme. Eles também poderão achar que só os outros são felizes, menos eles. Cabe aos responsáveis procurar a ajuda especializada, pois nessa fase da vida, em que a personalidade está sendo formada, as seqüelas poderão ser mais duradouras que em um adulto.
Como já dissemos, a depressão não escolhe idade e pessoas jovens não têm o poder de auto-avaliação como o adulto. Se não tratada corretamente, teremos um adulto introspectivo, complexado, um ser amargo, com a probabilidade de uma vida insípida e vazia. Ao pressentir a apatia em um jovem, conscientize-se da sua responsabilidade e procure os meios para torná-lo participativo, a fim de torná-lo uma pessoa feliz

sábado, janeiro 21, 2012

O Mundo à Sua Volta



O egocentrismo, o pensamento voltado para o seu mundo, aparentemente, ou verdadeiramente desabado, o impede de estabelecer parâmetros. Os seus problemas são "os maiores", "os piores", nada se compara a eles.
Sei que a comparação está fora dos seus limites de coordenação mental. A dissintonia o acomete tanto sob tratamentos médicos adequados, quanto enfrentando as barras sem eles. Deixa de observar, até subestima os problemas alheios.
A depressão venda seus olhos e não os pode enxergar ou percebê-los. Como o momento é de altos e baixos, você deve aproveitar aqueles em que sua percepção estiver boa para comparar o seu mundo com o dos demais. Por pior que estiver, sempre encontrará alguém, e muito mais do que possa imaginar, em situação pior que a sua. Quando lhe for permitido momentos assim, compare o seu estado físico, mental, financeiro, afetivo, etc. Tenho braços? Eles obedecem ao meu comando? As pernas, o sexo, aparência, meus meios de subsistência, estão melhores, piores ou iguais aos das pessoas que me rodeiam? Tenho o cantinho para morar? Meus parentes estão me dando atenção? Tenho recursos para viver dignamente? Estou provisoriamente fragilizado, mas estarei demente? Será que estou louco? Vivo sob efeito de psicotrópico, mas será sempre assim? Com essas perguntas na pauta, observe a luta de quem enfrenta uma cadeira de rodas com dignidade. Observe que você tem pernas para dar um passeio, ir à banca da esquina, à panificadora, aonde você quiser ir e vir. Você ouve, pode se comunicar. Você vê, pode ir a um cinema, se não conseguir ir sozinho arranje uma companhia.
Você pode ler. Mesmo que fisicamente esteja se sentindo debilitado, compare-se a quem já esteve pior mais ou menos agredido, e "aprenda" a recorrer a sua força de vontade para superar-se.
Se estiver numa clínica, observe que muitos estão lá sem possibilidade de sair, mas você não. Você vai estar fora dela tão logo as coisas se equilibrem.
E aqueles que nem lá podem estar? Já pensou? O seu mal é passageiro. Enquanto vivo, chances hão de existir para se reconstruir, com a vantagem de trazer na bagagem experiências não boas, e assim valorizar o que antes você não percebia. Você, intimamente, ficou enriquecido pelo sofrimento. Mesmo que muitas coisas antes consideradas essenciais já não existam mais, outras alternativas haverão de surgir. Até por esse lado você foi beneficiado, pois aprendeu algo muito difícil: esperar. O jovem guerrilheiro "de quem sabe faz a hora, não espera acontecer", ficou no passado. As coisas serão planejadas e executadas com mais conseqüência e, por certo, haverão de ser mais perenes, consistentes.
O choro pode ser uma constante em sua vida, mesmo sem motivo aparente, ou como pela perda de um ente querido. Seja a causa que for, continue a observar a sua volta. Nada é irremediável, pois temos o poder de aprender a conviver com o inevitável. É tudo uma questão de dar tempo ao tempo. Ele tem o poder de curar feridas, ainda que fiquem as cicatrizes.
Pense nas doenças incuráveis e nos sofrimentos que elas ocasionam. Normalmente, são batalhas inglórias, onde o mais fraco pode sucumbir, se obstinadamente não lutar para que saia vitorioso.
A partir dessas comparações, priorize readquirir a sua autoconfiança; sentir menos pena de si mesmo. Tudo deve visar a volta ao caminho de momentos felizes, naturalmente, sem forçação de barras. Nunca iremos, e sabemos em sã consciência, consertar o mundo. Mas, por esse prisma, muito poderemos fazer para amenizar esses casos de misérias e de desamor que descrevi. Assim procedendo, poderemos tornar o nosso sofrimento e o do próximo mais suportável. E seremos felizes, sem culpa.
A busca da saída é árdua. O mais prático e cômodo é continuarmos com as nossas atividades habituais. Mas, é o que queremos? Pode ser que sim, pode ser que não. Observe o trabalho de um pedreiro, um catador de papel. À noite, escute o barulho do caminhão de lixo. São atividades pesadas. O motorista de ônibus que durante horas a fio enfrenta um trânsito caótico, os tímpanos da telefonista... Mesmo estressado, pense nessas e noutras situações. Isso fará com que o seu quadro depressivo se amenize diante da realidade de outras pessoas.
Talvez os motivos que o trouxeram até aqui sejam mais leves ou piores. Não importa. O que interessa é nos reencontrarmos; nos reprogramar; simplificar para não complicar.

sábado, dezembro 03, 2011

Causas e Efeitos

Pirineus de Sousa
Do livro “Quando a Depressão Ataca”

Você deixou de gostar de coisas ínfimas ou grandiosas que antes vivenciava com tanto prazer. Sua auto-estima está abalada.
Intimamente, você se sente dependente, carente, incapaz... Está com algo atravessado na garganta, como se fosse um nó e não dá conta de engoli-lo. É como tentar desvencilhar-se de um emaranhado de teias. Você está em um barco para o qual não foi convidado, não aceitou, mas está  dentro dele. E o pior, sabe que está afundando e você não sabe o que fazer, mesmo sabendo nadar. O mar é alto, negro como petróleo e o barco faz água.
Você já deu o devido tempo para reencontrar-se e ele não chegou. Parece que nunca chegará e tudo que o cerca não lhe interessa. O isolamento é preferido ao convívio com as outras pessoas. Compara que por motivos idênticos, outras sofreram, choraram, mas voltaram às suas vidas normalmente, enquanto você se perdeu em meio ao caminho de volta. Como explicar para alguém que você está inexplicavelmente triste? Que chora, sem quê nem porquê. No seu ponto de vista essa pessoa está minimizando o seu sofrimento. Mas, não a culpe se a sua aparência não traduz a sua angústia interior. Só você mudou e talvez seja essa pessoa, antes mesmo de você a alertar para o fato.
Um, ou o somatório de alguns acontecimentos a seguir, podem ter ocorrido ou estão acontecendo em sua vida:
- Está dormindo de menos, ou demais se comparado ao seu turno normal de sono. De menos pelas preocupações que lhe afligem, ou demais para fugir das mesmas;
- Seu humor está instável, nem sempre equilibrado, tendendo para o mal humor, tudo o irrita por mais insignificante que seja o fato;
- Seu peso aumentou por alimentar-se por compulsão;
- Seu peso diminuiu, você se sente fraco, não tem apetite e as doenças facilmente o atacam;
- Seus reflexos estão lentos ou descontrolados;
- Seu desempenho no trabalho está abaixo do normal e você não se concentra nele;
- Morreu um ente querido;
- No romance foi traído;
- Perdeu o emprego;
- Dores não são confirmadas nos diagnósticos médicos;
- Um acidente o incapacitou;
- A solução dos problemas fica sempre para depois;
- Desfez um relacionamento amoroso;
- Seu amor não é correspondido;
- Enfim, o que dá prazer parou de lhe interessar, a isso chamam de "ante-hedonismo". Os acontecimentos que deveriam ser motivos de felicidade, como a aquisição de uma nova casa, uma promoção no emprego, a chegada de um recém-nascido, também, podem ocasionar a depressão. Ela vem, pôr impossível que pareça, em momentos que deveriam ser de celebração e não de tristeza e a ciência ainda não descobriu a causa. Sabe-se que quando há um desequilíbrio nos neurotransmissores do cérebro a transmissão das informações, sofre uma pane, quando então ocorre a desestabilização e os seus sintomas se afloram. É uma doença clínica esse desequilíbrio químico dos neurotransmissores que regem o humor. É mais um mal-estar físico, uma doença corriqueira, mas séria. Ela não tem sintomas físicos evidentes, não escolhe idade, ou sexo, podendo acometer 5% da população e entre 10% a 20% hão de passar por ela em algum período da vida.
Relevemos os quadros corriqueiros de tristeza passageira e lembremos que a depressão pode acontecer a qualquer um. A profunda dura normalmente de 6 meses a 2 anos, ou mais, mas hoje em dia, com a ajuda adequada, pode começar a ser curada ao fim de algumas semanas. Tudo é relativo e depende do quadro.
Se o "cachorro preto" o pegou, você prefere morrer, dormir e não acordar mais. Acha que se morresse, seria indiferente e não faria falta a ninguém. É hora de procurar ajuda, procurar a saída. Continuar ou aprofundar-se cada vez mais para o fundo do poço e acomodar-se, é a morte em vida e as forças poderão lhe faltar nessa guerra que com certeza será cheia de batalhas.
Entre os depressivos, está provado, o sistema imunológico fica debilitado, oferecendo oportunidades para o surgimento de doenças fatais. O corpo oferece-se assim, como que de graça para o aparecimento de doenças oportunistas, leves ou graves.
No tumulto em que está o seu epicentro mental podem surgir problemas físicos reais. A sua volta já devem ter acontecido muitos casos assim. Recorda-se daquele amigo que após anos de dedicação a um trabalho o perdeu sem maiores explicações?
Lembra-se da tristeza que o acometeu? E os problemas que advieram? E de que ele morreu? Sei de um caso real de câncer, mas pode ser um aneurisma... O compêndio da medicina é por demais extenso para descrevê-los. Procure manter a sua mente sob controle e não se dê ao luxo da situação chegar a esse ponto.
Alertamos que você pode estar apenas passageiramente triste e que poderá achar as situações descritas exageradas, mas se está realmente deprimido, verá que esse estado de espírito nos leva a extremos e nosso objetivo é ser abrangente, para mostrar as diversas facetas com as quais a doença se apresenta. Podem ser estados leves, passageiros, os mais profundos, os agudos e crônicos. Da forma que ela vier, a meta é nos safar. O que pode aparecer absurdo para uns, para outros caem sob medida e a quem não estiver acometido por ela parecerá estarmos descrevendo "O inferno" de Dante.
Declaradamente, não pensamos fazer destes escritos um livro de cabeceira. Nossa proposta é fazer com que pessoas afundadas nessa areia movediça se reencontrem a partir da autoanálise, e encontrem as causas que a levaram a isso, com a conseqüente busca de cura. Cheguei á conclusão que nem toda atenção do mundo, nem os recursos avançados da medicina serão suficientes para que você faça as pazes com a vida sem a sua colaboração. Se nela o eixo principal é você, por mais altruísmo e incentivos externos que receber, sem ela a nada se chegará.
Ao ler a palavra AUTO, atente que não estarei me referindo ao automóvel, a uma máquina e sim ao ser humano que é VOCÊ PRÓPRIO, é o seu EU.

sábado, setembro 24, 2011

Para Início de Conversa

Pirineus de Sousa
“Quando a Depressão Ataca.”

Primavera, há 13 anos. Lá fora o mundo estava lindo, mas dentro de mim só havia tristeza, indefinível, lá dentro, sem quê, nem por quê.
Daquela primeira internação um fato ficou gravado em minha mente. O médico da janela do meu quarto apontou-me diversos pacientes que perambulavam pelo jardim, descrevendo-me o porquê de muitas delas estarem ali. Eram pessoas que se sobressaíram em alguma atividade profissional e, no entanto o destino foi o mesmo: inativas dentro de uma clínica, enquanto lá fora a vida continuava para quem estava vencendo a luta com sucesso, ou mesmo sem ele.
Assim, declaradamente, foi à primeira visita que ELA me fez.  Durante muito tempo, ELA ficou indo e voltando. Tirava férias, mas ELA adorava esta casa, sempre voltava...
ELA é ELA porque fica mais familiar. Afinal de contas, não somos tão íntimos?
Então nada de formalidades. ELA, em sã consciência, nunca poderia ter sido a eleita, a amada, a querida, a companheira para este ser, ainda humano.
ELA contagia tudo ao redor do lugar escolhido para sua morada. As plantas, os animais, os móveis, minhas roupas, as pessoas. Mas pior, ELA me ama de verdade, só a mim, o eleito, o privilegiado.
Quantas vezes já me perguntei, por que logo eu? Há tanta gente neste mundo! Mas não questiono, foi tudo uma questão de opção dela.
Colocando sob este ponto de vista, me dou ao comodismo de atribuir culpas só a ELA, esquecendo ou omitindo a minha participação no nosso caso. Pratico um auto-hedonismo.
Dizendo assim, estarei amenizando, atenuando, o que na verdade é uma doença séria.
Quando estou com ELA, tenho por norma culpar a tudo e a todos por aquilo que me acontece. Concordo, não sou um problema, sou vítima. E nesse tempo, não tenho condições de ser eu mesmo. Falta-me tudo. Os meios que habitualmente utilizava para sobreviver estão se aniquilando. Não fazem mais efeito, quando os aplico como antes, nos mínimos detalhes, os resultados não aparecem.
Estou fragilizado, a sós, eu e ELA, o resto não importa.
ELA veio para arrasar, tornando-me um verme. Na matemática da vida, sou zero à esquerda. Não conto, não somo, sou ignorado. Faço de conta que vivo, pois na verdade vegeto. Penso que se desligassem os aparelhos, não faria falta, ninguém notaria.
Por pouco não estou vivendo da caridade alheia: ELA é um trambolho caro e tenta porque tenta acabar com nossos meios de subsistência, apesar de não ser vaidosa, mas também não exige. ELA não me leva ao cabeleireiro, às lojas para que eu tenha uma aparência melhor. ELA me quer dependente, mal vestido, mal cuidado e, ciumenta como é, me quer enclausurado seja da forma que for, de preferência, confinado. Mudo, sem ter com quem conversar. Apenas posso compartilhar com ELA este amor sem fronteiras, que gira em círculos. ELA delineou uma mandala em torno de mim, para coexistirmos somente nós dois na tristeza desse amor fatal.
Meus amigos, meus parentes, a pessoa amada, o sexo prazeroso, meu trabalho, ELA os afastou, porque não dizer que os afugentou? Impôs suas regras, ELA me quer submisso e eu que a odeio e a amo ao mesmo tempo, faço o seu jogo. Afinal, só ELA entende minha autopiedade. O seu ombro companheiro está sempre à minha espera. ELA é o máximo. Compreensiva, têm chicotes, coleiras, arreios, cabrestos, toda uma parafernália de objetos prontos para satisfazer meus instintos sado masoquistas. Provoca-me sangramentos no corpo e na alma, é uma parceira perfeita.
Eu sempre me pergunto; que mal fiz para merecê-la? Sei que não somente eu faço esta pergunta, mas toda a minha família, todo um círculo de pessoas. Mesmo assim, eu tenho a resposta? Não, não tenho, porque se tivesse, ou lucidez para tal, não teria me juntado a ELA, e se tivesse oportunidade há muito a teria abandonado.
Continuamos eu e ELA. Até quando? Eu diria sei lá!
Quero é que eu e ELA nos explodamos e sumamos para onde nem os pensamentos alcancem. Afinal nós dois somos problemas e deles todos querem distância, portanto, fora com nós dois.
ELA tenta me levar para diversos caminhos, optei pelo álcool e remédios que só consigo nas farmácias com receita azul. "Uma mistura perfeita". Pelo gosto dela eu deveria, também, enveredar pelos tóxicos. ELA é chegada a estes canais de fuga e nada melhor para momentaneamente fugir da realidade, onde ninguém me entende.
Não temos uma linha a ser seguida, ela é mutante e eu dependo dos seus caprichos, então nada é definitivo.
Muitos já me disseram que ELA me traiu Mas os outros foram fortes, a repeliram, fizeram isto e aquilo, mas não permitiram que ELA se apossasse deles. Isto faz subentender que sou um fraco e deixei que ELA me dominasse, o que me deixa triste, na minha fraqueza, na minha penúria. Logo eu que tinha tantos planos. Eu que era equilibrado, agora estou só.
Penso que até Deus me abandonou. Tudo é caótico. Tenho a impressão de que fui alvo de uma bomba atômica e estou só em meio a esse cogumelo mortífero, sujeito a toda sorte de desgraças. Não enxergo um centímetro à minha volta, fico surdo, mudo, incomunicável, só eu e ELA. ELA faz com que tudo o que me diz respeito, dê errado.
ELA tem serviçais devotos até a morte, que incutem em meus mais recônditos esconderijos do cérebro, fobias, pânicos de toda ordem. É horrível. Por vezes quero descer aos infernos a ter que enfrentar aglomerações de pessoas, sejam quais forem, filas, shoppings... Não suporto ver TV, ouvir rádio onde os mortais comuns cantam as suas dores de cotovelo ou suas alegrias de viver. Se eu a tenho, o que me importa o resto do mundo, se só ELA me basta?
Eu que era normalmente participativo, procurava sempre novos conhecimentos, tinha perspectivas inúmeras para a vida, hoje não quero saber de nada.
Têm acontecido tantas coisas, que me considero um vaso que caiu, despedaçou-se em estilhaços pontiagudos, prontos para ferir seja lá o que for. Não tenho mais valor, não sou mais inteiro. Passei a ser figurante, coadjuvante na vida, não brilho mais, só provoco reações negativas.
Eu e ELA não temos necessidade de sermos vulgares, sermos comuns como os demais que vão e voltam, saem a passeio, a trabalho, o cotidiano básico. Para nós um carro é um embuste. Penso, se eu dirigir vou ter sudorese por todo o corpo, a ponto de ensopar toda roupa e isso ocorre porque ELA presenteou-me com o pânico. Se insistir em pegar no volante, lembro-me dos efeitos colaterais. Meus reflexos podem estar muito lentos, posso estar irritado. Enfim um carro em minhas mãos pode se tornar uma arma.
Aos problemas que aparecem, não tenho soluções, vou somando um a um. No final não tenho problemas pequenos, isolados, tenho um só, enorme. Sinto-me um Atlas carregando o mundo nas costas. É um fardo muito pesado, está além das minhas forças e me esmaga.
Situei-me, não gosto de ninguém e ninguém gosta de nós.
Estamos de mal com o resto do que existe, pois todos são injustos para conosco. Assim prefiro alienar-me a ter que conviver com pessoas tão más. Prefiro a ELA.
Na minha fragilidade, tornei-me vulnerável a qualquer tipo de ataque, não tenho como me defender Por isso, eu e ELA, mesmo a contra gosto, somos cercados de pessoas para nos ajudar, pois mesmo sendo agressivos, temos má pontaria. Nunca acertamos o alvo.
Por vezes eu e ELA ficamos eufóricos, sonhamos grande.
Tornamo-nos poderosos. Aí somos perigosos, capazes de praticar os piores desatinos, afinal somos mutantes. Nesse ponto nosso barco que julgávamos navegar em águas tranqüilas, faz água, afundamos e estamos novamente imersos na escuridão.
Numa nau à deriva, sujeitos a ventos e tempestades. Solitariamente, eu e ELA, minha inseparável companheira.
Aquela de ombros fortes, onde constantemente derramo minhas lágrimas, aos pés daquele ouvido que escuta minhas lamúrias, e como o faço! Afinal não tenho pouco a reclamar. Sou um pobre coitado que perdeu tudo e a todos, principalmente a vontade de viver, o que antes me parecia o mais essencial, tanto quanto o ar que respirava.
O pior é quando sinto que as pessoas estão pensando que estou criando situações ilusórias, problemas inexistentes. Que eles não existem, que não passam de doença de quem não tem o que fazer, que é o diabo fazendo moradia em uma mente desocupada. Enfim, é fricote puro. Constato, por força de circunstâncias, que profissionais da área médica não versada no assunto da psique humana, também, às vezes pensam assim. Impossível?
Não. E por falar na categoria médica, eu e ELA já conhecemos diversos. Com alguns nos demos bem, com outros pessimamente. Por certo não me acharam um caso interessante em comunhão com ELA... Ou não encontraram um remédio, ou aconselhamentos para que nós pudéssemos nos sentir melhores.
Muitas vezes nos afastamos deles simplesmente porque os achamos desinteressados em nosso caso, tão inequivocamente mais ricos que os demais casos. Nós, eu e ELA, nos consideramos mais interessantes, não somos para o entendimento de qualquer um. Assim, jogamos na retaguarda, camuflamos a verdade, o que torna ainda mais difícil a nossa volta à realidade da vida.
Não é incomum me sentir um paranóico junto aos demais acompanhantes desse planeta Terra. Eles não conseguem me enxergar apenas triste, desanimado para viver. Não me sinto parte de uma minoria, me sinto só em mim mesmo.
Escuto os incautos me dizendo: saia; faça uma viagem, trabalhe com mais garra, vá a uma igreja, troque de médico, deixe os problemas de lado, esqueça-os e coisas assim. A minha doença para essas pessoas é como um simples trocar de roupas.
É como se trocando de remédios, ou mesmo parando de tomá-los, eu ficaria bom.
Mas na apatia que ELA me deixa, ainda consigo lembrar que tenho dois ouvidos; um para entrar, outro para sair, e quando esses conselhos valem à pena, lembro-me que entre eles tenho um cérebro, ainda que com problemas, capaz de armazenar as informações que julgo úteis. Parafraseando: Eu não sei o caminho para o sucesso; mas, sem dúvida, o caminho para o fracasso é agradar a todo mundo.
Assim como uma Fênix, estou tentando renascer das cinzas, sair do fundo do poço profundo, sombrio.
Como "cada caso é um caso", a minha abordagem é ampla, sem, contudo, não ter a presunção de um tratado médico.
Você sendo essa outra pessoa, é bom que saiba a opinião do Dr. Jeffrey Lynn – "Em geral esse mal atinge os mais ambiciosos, criativos e escrupulosos".
Como nada há de errado em se enquadrar nesse perfil, o nosso objetivo é que você volte a ser ambicioso criativo e escrupuloso, mas policiando-se para não chegar aos extremos e sofrer com as suas conseqüências.